O Observatório IA nas eleições identificou 413 conteúdos políticos com uso de inteligência artificial publicados entre 1º de janeiro e 16 de agosto de 2026. O levantamento aponta que o PL e Flávio Bolsonaro tiveram os maiores registros entre os atores políticos analisados, enquanto cerca de 63% das peças não exibiam a sinalização exigida pela Justiça Eleitoral. O dado ganhou relevância após o lançamento, em 22 de setembro, do Guia Internet, Democracia e Eleições, que trata vídeos falsos e desinformação em aplicativos de mensagens restritas como ameaças digitais às eleições de 2026.

O recorte do Observatório IA nas eleições

Produzido pela Data Privacy Brasil e pela Aláfia Lab, o levantamento reuniu publicações identificadas entre o início do ano e 16 de agosto. Do total de 413 conteúdos, 60% foram classificados como sátira e 40% como desinformação. A divisão mostra que a presença de inteligência artificial não descreve, sozinha, a natureza de cada peça: os pesquisadores separaram materiais humorísticos daqueles considerados desinformativos, mantendo categorias diferentes para a análise.

Dentro da distribuição por atores políticos, Flávio Bolsonaro publicou 13 conteúdos, o maior número individual citado no levantamento. O PL apareceu como o partido com mais mensagens propagadas, somando 28 registros, contra quatro do PT e dois do PSDB. O resultado aponta concentração nos nomes ligados ao partido, mas não permite concluir que todo conteúdo associado a Flávio ou ao PL seja falso ou ilegal, já que o levantamento também inclui peças classificadas como sátira.

Sinalização e circulação dos conteúdos

Essa concentração ocorreu junto a uma falha de identificação: cerca de 63% dos conteúdos analisados não continham a sinalização obrigatória exigida pela Justiça Eleitoral. A ausência do aviso dificulta que o público saiba quando uma imagem, um vídeo ou outro material foi produzido ou alterado por inteligência artificial. O problema está ligado à transparência da publicação, independentemente da classificação atribuída ao conteúdo.

Outro levantamento reforçou a dimensão do problema em contas políticas. O Observatório Lupa, em parceria com a FAAP e a Meedan, analisou 314 conteúdos publicados entre 16 e 26 de agosto e identificou uso de IA em 282 deles. Entre essas publicações, 37 foram feitas por contas oficiais de candidatos sem qualquer indicação de manipulação, enquanto o Facebook concentrou 202 registros de conteúdo enganoso e o Instagram, 62.

Por que o CGI.br ampliou o alerta

O Guia Internet, Democracia e Eleições, lançado pelo CGI.br em 22 de setembro de 2026, coloca os deepfakes e a desinformação distribuída por aplicativos de mensagens restritas no centro da preocupação com o pleito. Segundo o documento, vídeos falsos e conteúdos enviados em redes como o WhatsApp substituíram as fake news tradicionais em redes abertas como principal ameaça digital. A mudança torna a circulação mais difícil de acompanhar e conecta o problema à concentração identificada nos levantamentos.

O guia também afirma que a IA generativa é usada para criar narrativas com alta verossimilhança, explorando a chamada racionalidade motivada dos eleitores e intensificando a polarização. O documento alerta ainda para o papel dos influenciadores, que não seguem os mesmos códigos de ética do jornalismo, e aponta risco de perda de confiança em instituições como o Judiciário e a imprensa. Assim, a preocupação não se limita à existência de um conteúdo sintético, mas alcança a forma como ele é apresentado e distribuído.

As regras do TSE para conteúdos sintéticos

O Tribunal Superior Eleitoral aprovou em 1º de setembro de 2026 parâmetros para caracterizar deepfakes. A regra proíbe o uso de conteúdo sintético em propaganda eleitoral quando houver grau de realismo ou verossimilhança, além de exigir a informação sobre a origem do material. A medida responde à dificuldade de distinguir imagens e vídeos manipulados em uma disputa marcada por publicações produzidas com inteligência artificial.

O levantamento também identificou 29 avatares hiper-realistas criados por IA para comentar política no Brasil. Uma convenção do PL utilizou um avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro, fato que levou o TSE a definir que conteúdos com grau de realismo não podem ser usados em propaganda eleitoral. Entre 1º de janeiro e 15 de agosto, 64% dos materiais analisados tinham críticas ou ataques, e 60% apresentavam tom jocoso.

O que os dados mudam para a apuração

A leitura dos números exige separar quatro elementos: quem publicou, como o conteúdo foi classificado, se houve identificação do uso de IA e onde a mensagem circulou. Essa distinção evita transformar a presença de inteligência artificial em prova automática de falsidade. No caso de Flávio Bolsonaro e do PL, os dados sustentam a liderança nos registros, mas não autorizam atribuir a mesma natureza a todas as publicações relacionadas a eles.

Essa separação também orienta o fluxo editorial automatizado do portal com o ScalePress. Na prática, a ferramenta organiza fontes, números e contexto para que a produção de uma notícia não misture autoria, classificação e veracidade. A automação ajuda a estruturar a apuração, enquanto a interpretação precisa permanecer vinculada ao que os levantamentos efetivamente mediram, como a sinalização, a distribuição e a categoria de cada conteúdo.

O próximo limite já está definido: entre 72 horas antes da eleição e 24 horas depois, será proibida qualquer publicação ou impulsionamento de conteúdo sintético que envolva candidatos ou pessoas públicas. Até esse período, a concentração apontada pelo Observatório deverá ser acompanhada sem atribuir automaticamente falsidade ou ilegalidade a todos os materiais ligados ao PL ou a Flávio. A combinação entre identificação obrigatória, análise de contexto e aplicação das regras do TSE será o principal critério para avaliar essas publicações.